segunda-feira, 31 de março de 2008

Detrás do rosto

Acho que mais me imagino
do que sou
ou o que sou não cabe
no que consigo ser
..............................e apenas arde
detrás desta máscara morena
que já foi rosto de menino. [...]
Você vai rir se lhe disser
que estou cheio de flor e passarinho
que nada
do que amei na vida acabou:
...............................e mal consigo andar
...............................tanto isso pesa.

Ferreira Gullar

Intertextualidade

Vi esse quadrinho do Larte hoje na Folha de São Paulo.


Imediatamente me lembrei dos versos de Pessoa que, inclusive, postei em janeiro:
"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
(...)
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada."

domingo, 30 de março de 2008

Procura-se um amigo

Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor.. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar.
Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoa tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.
Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.
Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.

Vinícius de Moraes

quinta-feira, 27 de março de 2008

20 coisas que vão fazer falta quando a "indesejada das gentes" chegar

1. Torta de morango da D. Terezinha;
2. Curar ressaca com banho quente, ouvindo Pavarotti, cantando Nessun Dorma, na maior altura;
3. Correr no clube com Frank Sinatra no Mp3;
4. O sol batendo "na janela do meu quarto";
5. Descobrir poesia nas coisas e nas palavras;
6. Observá-la nua dormir o seu sono morno;
7. Digo, Oreia,Tatu e Foca na mesa de bar;
8. Chorar nos finais do Anos Incríveis;
9. Caminhar lendo a piauí;
10. Passar o dedo na pontinha do travesseiro (cada louco com sua mania, pô!);
11. Uma cafeteria. Um romance nas mãos. Um capuchino;
12. Chope cremoso;
13. Você dizendo "Eu te amo";
14. Alunos que aprenderam a amar literatura;
15. Galope. Estrada de terra. Vento no rosto. Liberdade...;
16. Pizza;
17. Acordar: café;
18. Skol Beats com limão dentro;
19. Preparar uma massa tomando vinho (tinto seco!);
20. O Jombatista ("Deste-nos pobreza e amor. A mim me deste / A suprema pobreza: o dom da poesia, e a capacidade de amar / Em silêncio.")

Se isso servia pro séc. XIX, imagine pros dias de hoje!

"A soma de barulho que uma pessoa pode suportar está na razão inversa da sua capacidade mental."

Schopenhauer


"Sendo assim, até o dia fatal de cerrarmos os olhos
não devemos dizer que um mortal foi feliz de verdade
antes dele cruzar as fronteiras da vida inconstante
sem jamais ter provado o sabor de qualquer sofrimento!"
(Sófocles. Édipo Rei, vv. 1807-1810)