quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Professor sofre pra carvalho!

Anos Incríveis - Melhores momentos

Alguns diálogos, algumas falas, são inesquecíveis...

1. Do episódio O lago, quando Kevin tem um amor de verão, mas tem de deixá-la para se encontrar com os pais e partir:
"Eu queria ter ficado lá mais do que qualquer outra coisa que já houvesse desejado. Mas eu não podia. Eu tinha 15 anos, morava na casa de meu pai, dormia numa cama comprada por meu pai. Nada era meu, a não ser os meus sonhos, as minhas esperanças, e a certeza que, a partir dali, nada mais seria como antes."

2. No mesmo episódio, ele diz, ao perceber que nunca mais veria o seu amor de verão:
"Foi a pior coisa que senti na minha vida. E era maravilhoso!"

3. Do episódio "o Rejeitado" quando, no final, Kevin encontra Paul, seu melhor amigo, na rua:
"Acho que, de certa forma, todos somos rejeitados. Isso até que a gente ache alguém que combine com a gente, alguém que nos desafie a ser o melhor que pudermos. Alguém que nos entenda, mesmo quando damos o pior de nós. Foi aí que comecei a perceber como isso era raro..."

4. Kevin entra pro time de beisebol porque deu sorte numa tacada e porque o pai é amigo do treinador, amigo de guerra. Ele se sente intimidado com isso e joga muito mal. Acontece que, no último dia, ele consegue mandar uma boa bola. A cena que sucede parece como final de campeonato. No entanto, ele faz uma jogada espetacular e sai carregado pelos colegas. Ele diz:
"Talvez não seja assim que aconteceu, mas é assim que deveria ter acontecido e é assim que eu gosto de lembrar. Quando as suas lembranças do acontecimento e a realidade se misturam, é porque é para ser assim mesmo, porque todos os garotos merecem ser heróis. Na verdade eles já são."

5. Kevin conhece uma garota bem excêntrica, que colecionava aranhas e gostava de morcegos. Ele tem de dançar quadrilha com ela no colégio. Detesta a idéia e estraga toda a dança com a menina, dizendo que não gostava dela. Mas, no final, a sua voz adulta diz uma frase muito interessante:
"Eu dancei sozinho. Talvez, se tivesse sido mais corajoso, eu poderia ter sido seu amigo, mas a verdade é que, na sétima série, quem você é, é o que seus colegas dizem que você é. O engraçado é que é difícil lembrar o nome das crianças que você gastou tempo tentando impressionar. Mas você não esquece alguém como Margaret Farquhar. Professora de Biologia. Mãe de seis."

6. Sobre seu professor de matemática, que havia morrido:
"Professores nunca morrem. Vivem em suas lembranças para sempre. Estavam lá quando você chegou e também quando foi embora. Como acessórios. Às vezes, lhe ensinavam alguma coisa. Mas não era sempre. Nunca chegava a conhecê-los de verdade, nem eles a você. Ainda assim, por algum tempo, você acreditava neles. E, se desse sorte, talvez um deles acreditasse em você."

7. No mesmo episódio, me lembro de um momento em que Kevin se revolta com o professor por ele não atender a um capricho seu e diz: "Pensei que fôssemos amigos!". E o professor diz: "Eu não sou seu amigo, Sr. Arnold, eu sou seu professor." Ao saber da morte do mestre, ele diz:
"Nunca vou me esquecer de como ele tentou me tratar como um homem, e de como respondi agindo como um menino. "

8. O pai de Kevin vivia brigando com sua irmã Karen, por causa da hora em que ela chegava em casa, por causa da sua ideologia hippie e tudo o mais. As coisas se agravam quando ela diz que não comemorará o aniversário em casa e não deseja bolo nem presentes. No entanto, ela aparece e faz as pazes com pai. Ele a deixa ir e dá a ela uma velha mochila que ele havia usado na guerra da Coréia. O narrador diz:
"Na noite do 18º aniversario de minha irmã, várias coisas aconteceram. Talvez mais do que ela imaginou. Porque, naquela noite, quando meu pai deixou Karen sair, ele deixou Karen ir. E talvez é assim como deve ser - crianças vão... e os pais ficam para atrás. Mesmo assim, algumas coisas são mais profundas do que tempo e distância. E seu pai sempre irá ser seu pai. E sempre irá deixar a luz acesa para você."

9. Episódio "Natal", no finalzinho, quando Kevin está abrindo um presente da Winnie. Tratava-se de um trevo de 4 folhas:
"Naquele ano, o natal deixou de significar pra mim enfeites e presentes e começou a significar recordação. No começo fiquei um pouco desapontado, mas aprendi que a memória é uma maneira de reter as coisas que amamos, as coisas que somos, as coisas que não queremos perder nunca! E o que aprendi com o Winnie foi que num mundo que muda tão depressa o melhor que podemos fazer é desejar aos outros um feliz natal... e muita sorte!

10. "Era o primeiro beijo para nós dois. Nunca falamos sobre isso depois. Mas penso sempre nos acontecimentos daquele dia e, de alguma forma, sei que ela também."

11. "E sempre quando algum espertalhão começa a falar sobre o anonimato do subúrbio ou a inconsciência da geração da tv, sabemos que dentro de cada uma daquelas casas idênticas com seus Dodjes estacionados na frente, seu pão de fôrma sobre a mesa e o azul brilhante do aparelho de tv no cair da noite, vivem pessoas com suas histórias, famílias unidas na dor e na luta do amor. Existiam momento que nos faziam chorar de tanto rir e outros como aquele, de perplexidade e tristeza..." - quando da morte do irmão da sua namorada Winnie no Vietnã.

12. "Acho que todos nós nos arrependemos de desistir de alguma coisa, uma coisa cuja falta sentimos, que desistimos porque fomos preguiçosos demais ou por não persistirmos, ou até porque tivemos medo."

13. "É difícil fazer o curativo com uma mão só, mas uma hora você acaba aprendendo..." - sua mãe vivia constrangendo-o por causa de seus cuidados excessivos até que ele resolve dar um basta. Depois se arrepende...

14. "O amor às vezes é inesperado e imprevísivel, você tem que entrar com o coração e torcer para dar certo."

15. "Às vezes temos que crescer separados para voltar a crescer juntos".

16. Depois de ouvir uma discussão sobre a guerra do Vietnã entre seu pai, Jack, e o namorado hippie da irmã:
"Quem estaria certo e quem estaria errado? Agora eu sou adulto, e continuo sem saber. Mas em algum momento, tarde da noite, quase ao adormecer, as idéias e desentendimentos se dissipam e restam apenas as pessoas. E as pessoas naquele tempo não eram diferente do que sempre foram e sempre serão. As moças se apaixonam. Os homens e as mulheres sofrem sozinhos pelas escolhas que fizeram. E os meninos, confusos, cheios de medo, de amor e de coragem crescem silenciosamente enquanto dormem."

17. A irmã vai para a faculdade, Kevin vai para a "9ª série" e sua namorada muda para uma outra casa, longe dele:
"As coisas iam ser diferentes agora. Minha irmã ia para a faculdade. Meu irmão... era meu irmão. Minha mãe e meu pai ficariam para trás combatendo os cupins, cortando a grama e envelhecendo juntos. Quanto a mim, eu tinha que percorrer minhas distâncias. Seis quilômetros de Nova York a Paris. Até Winnie ir embora, tudo no mundo estava na frente de minha porta. Agora, talvez o mundo tenha que ficar um pouco maior..."

18. "Seus filhos não são os seus filhos. Eles são os filhos e as filhas da própria vida. Você pode abrigar seus corpos, mas não suas almas. Suas almas habitam o mundo de amanhã. A vida não volta atrás nem permanece no ontem."

19. "A cada dia, mês, ano, cresço como pessoa, com lágrimas e sorrisos."

20. "A gente tem que fazer escolhas na vida e tentar ser feliz com elas."

21. "Existem noites na vida da gente que são regidas por forças incontroláveis: mágica, romance, destino... Noites nas quais o amor nos pega de surpresa e depois disso as coisas nunca mais voltam a ser as mesmas. Tive a sorte de viver uma dessas noites e essa lembrança ficará comigo para sempre."

22. "A mágica não dura para sempre, o destino pode mudar de uma hora para outra e cortar como uma faca."

23. "Algumas pessoas passam pela sua vida e você nunca mais se lembra delas, outras a gente fica imagindo: o que será que aconteceu? O que elas viraram? Talvez dentista? Colunista social?! Não! Advogada especializada em divórcio! Fico imaginando se certas pessoas também se perguntam o que também aconteceu comigo. E há também aquelas pessoas que você desejaria nunca mais lembrar na vida... mas você se lembra."

24. "Talvez fosse uma questão de ajuste. Em um mundo de insegurança, onde crianças de cabelos crespos desejavam cabelos lisos, crianças pesadas queriam perder peso, e os mais magrinhos queriam engordar, e todos queriam ser uma outra pessoa, a única beleza verdadeira era o garoto que simplesmente conhecia a si mesmo. E estava contente com aquilo que conhecia."

25. Muito bom esse. Kevin brigou com a Winnie, porque ela estava mudando, se tornando uma pessoa diferente. Ela saía com um pessoal mais velho, de que ele não gostava. Não gostava de vê-la ela saindo com pessoas que, pra ele, não faziam o tipo de pessoa com que Winnie sempre saiu.
Bem, logo depois da briga ela sofreu um acidente de carro, andando esses caras. Quando soube, saiu correndo e foi vê-la. Ela não quis. Aí, ele fala:
"Foi ai que eu percebi que a Winnie não me queria mais fazendo parte da vida dela, então só me restava ir embora...
[pega sua bicicleta e vai pela rua, mas há um corte brusco e...]
"Mas eu não fui!"
[A proxima cena é dele subindo no telhado pra olhá-la pela janela]
"Eu não fui, eu não podia ir. Há coisas na vida que são importantes. Coisas no passado que não podem ser negadas. Winnie Cooper era parte de mim e eu parte dela. E não importava o que fosse ou o tempo que vivêssemos, eu sabia que eu nunca poderia deixar ela ir."
Ele, olhando-a pelo lado de fora da janela, diz: "Eu te amo."
Ela, deitada na cama, responde: "Eu te amo."

25. Quando Kevin e Winnie estão num celeiro, fugindo da chuva, diz:
"Sempre vou te amar, Winnie." E ele, narrador, completa: "Depois de tanto tempo hoje eu percebo que aquela frase so poderia ser dita por corações muito jovens..."

26. "Depois de tantas vezes que queria ouvir um sim, subestimei nosso amor vendendo muito barato o que várias pessoas passam a vida toda procurando. Queria impressionar pessoas sem importância e acabei separando quem mais importava: nós."

27. "Naquela noite, falamos da vida, do tempo que passamos juntos. Talvez não fôssemos mais aquelas crianças. Mas certas coisas não mudam nunca, certas coisas permanecem. E mesmo que eu não soubesse o que ia acontecer conosco, nem para onde nos dirigíamos, sabia que não podia deixar ela sair da minha vida". - na formatura.

28. Episódio da última pescaria juntos. a pescaria Jack, Waynne e Kevin saem pra pescar num lugar em que Jack havia descoberto há muito tempo.

Jack: Sabe, rapazes? Um dia eu ainda largo tudo e venho morar aqui, sabe? No meio da natureza, sem preocupações. Não preciso de muito. Construo uma pequena cabana e viverei da pesca e de uma horta...
Waynne: E a hipoteca? Isso nunca vai acontecer!
Jack: É... eu sei.

E, ainda, ouvimos Kevin dizer:

"Me lembro dessa pescaria em particular, não por ter sido a melhor nem a pior, mais por ter sido a última ao lado de meu pai."

29. O carro do Vovô. Quando Kevin ganha o carro do avô, que falecera:
"Alguns presentes são simples. Alguns têm seu preço. Alguns você compra por 1 dólar e duram a vida toda. Acho que todos se lembram do primeiro carro. Sei que lembro do meu. Não porque foi o meu primeiro, mas porque foi o último do meu avô."

30. "Afinal de contas, crescer é uma guerra. Esses amigos que crescem junto com você merecem um respeito especial. Aquele que serra fileiras, ombro a ombro com voce numa época que nada é certo quando a vida inteira ainda está pela frente e todas as estradas o levam para casa!"

31. "Crescer é complicado. É uma espécie de corrida contra o tempo, busca de indentidade, de amor. E o resultado é sempre duvidoso... As coisas acontecem muito rápido, às vezes rápido demais."

32. "Saí para dar uma volta, passei por ruas que conheci, antes quando a vida era simples, quando a vida era... novidade. Eu percebi que os bons tempos tinham terminado, as coisas haviam mudado e nunca mais seriam as mesmas."


quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Fusilli à carbonara


Mais um momento gastronômico!

Ingredientes:

- 500g de fusilli (aquele parafuso);
- 150 g de bacon (já picado);
- 150g de parmesão ralado;
- 3 ovos vermelhos;
- 1 caixinha de creme de leite;
- 1 copo (de dose) de conhaque (é claro que não poderia faltar! rs);
- pimenta-do-reino moída na hora a gosto.

Preparo:

1. Cozinhe a massa, em água fervente, seguindo as recomendações do fabricante;

2. Bata duas gemas e um ovo inteiro. Adicione uma caixinha de creme de leite (melhor fresca) e a metade do queijo (também preferencialmente fresco).

3. Quando a massa estiver quase pronta, doure o bacon.

4. Em seguida, escorra muito bem a massa. Rapidamente, mexa com os ovos batidos e jogue o bacon dourado.

5. No final, acrescente um copinho de conhaque (tira o gosto do ovo e dá um cheirinho gostoso. rs).

6. Mexa e complete com o resto do parmesão e bastante pimenta preta.


terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Cantiga para não morrer

Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.

Ferreira Gullar. De Dentro da Noite Veloz (1962-1975)

Esse é um poema do Gullar que já me agradou logo de cara, mesmo antes de pensar sobre ele. O título já nos remete às cantigas de amor medievais. E é um título curioso. Abre espaço para três interpretações ao menos.
Deseja-se que a cantiga seja eterna e não morra nunca? Pode ser. Nós passamos pelo mundo, mas a escrita permanece. Trata-se, portanto, da crença no valor e no poder da palavra escrita, capaz de tocar e emocionar. Que sobrevive a nós todos.
Ou, então, poderíamos ter aqui a elipse de um pronome pessoal: "cantiga para 'eu' não morrer". Se, antes, o verbo ligava-se à "cantiga", agora refere-se a um "eu". Embora essa visão pareça resgatar a idéia anterior, o ponto de vista torna-se mais subjetivo.
A literatura é uma das maneiras possíveis de se enganar a morte. Por meio dos nossos escritos, continuamos a viver, mesmo depois de partirmos. George Whasington já dizia que, antes de morrer, o homem deveria plantar uma árvore, ter um filho e... escrever um livro. Ora, todas as opções dão essa ilusão de imortalidade e são extensões de nós mesmos depois do grande mergulho nas trevas. É uma forma de eu deixar minha marca no mundo.
Podemos entender, ainda, o poema como um desabafo. A tentativa de exprimir um estado d'alma, que é o fundamento de toda a lírica. "Morrer" pediria um complemento implícito. "Faço essa cantiga para não me perder; para não morrer de amor, de saudade ou de tristeza". A morte está aqui presente na partida da mulher amada, que é dada como certa. Note que ele não diz "Se você for embora", e sim "Quando você for embora". O amor é visto sob a ótica da perda. Invariavelmente perdemos aqueles que amamos.
Outro dado que o aproxima de uma cantiga de amor é o aspecto formal. Todos os versos são feitos em medida velha (sete sílabas poéticas). À exceção de um: o terceiro verso da primeira estrofe. Por que isso? É referência ao eu-lírico incompleto sem a mulher amada? Ou apenas abre espaço para a gradação que se seguirá ("coração-lembrança-esquecimento")? Não sei.
Não podemos esquecer a presença das anáforas ("moça brança/menina branca", "me leve"), que sugerem um paralelismo típico das cantigas de amigo e, possivelmente, enfatizam o sofrimento amoroso ou a melancolia do poeta.
A partir da segunda estrofe, inicia-se o processo de separação entre eu-lírico e a mulher amada. Ele deseja existir ainda nela, mesmo depois do abandono. Este distanciamento se dá em diferentes níveis, do mais íntimo ao mais impessoal. Porque é apenas um desejo do poeta, não uma certeza. Todo o texto seguinte começa por orações condicionais, que indicam possibilidade. Nada é concreto. Nada garante que a jovem cumpra o que lhe é pedido.
Voltando à idéia do distanciamento, notamos que ele se dá também no plano formal. Partimos de três versos, depois para duas estrofes com quatro e, por fim, uma com cinco. Na primeira, pode-se entrever uma proximidade física. Dada a separação, o eu-lírico deseja que, ao menos, a "menina branca de neve" sinta saudades dele e carregue dentro de si o amor que tiveram.
Não sendo isso possível, que ela ao menos se lembre dele, de alguém que um dia a amou. Sem a carga de sentimento que aparece na segunda estrofe. Estamos no universo da memória, não do sentimento.
Caso isso não aconteça, que ela, enfim, o leve no seu esquecimento. É plano da morte. Lembremos de Camões: a morte é a "lei do esquecimento". E não queremos ser esquecidos. Queremos ser lembrados! Dessa forma, voltamos ao título. "Escrevo essa canção para não ser esquecido por você" ou "Escrevo essa canção para não deixar morrer em você essa lembrança, esse sentimento", parece nos dizer. Temos aí uma quarta interpretação.


segunda-feira, 28 de janeiro de 2008



Texto bem manjado da net.
Eu como meu diploma, dançando rumba e vestido de Carmen Miranda, em cima da fonte da praça, se esse texto for do Willian Shakespeare, mas é bom lembrar certas coisas.


Pedaço de Mim

A palavra "saudade" é comumente considerada uma das mais difícieis de se traduzir. Ela vem do latim solitas, solitatis, que significa "solidão". Daí "solitude" (francês), "solitúdine" (italiano) e "soledad" (espanhol). Mas eles, diferente de nós, não desenvolveram uma palavra diferenciada com a particularidade de "saudade". Esta tem grande flexibilidade na nossa língua: por meio dela podemos extravasar os sentimentos mais profundos, os desejos ou caprichos mais corriqueiros.
Saudade é a recordação nostálgica e suave de pessoas ou coisas distantes ou extintas, acompanhada da vontade de revê-las e tê-las de volta; desejo de um bem que se perdeu, ainda que provisoriamente. É um sentimento de amor e de ausência.
Foi o que me ocorreu ao revisitar essa composição maravilhosa do Chico. Ele cria imagens belas e doloridas para esse sentimento.

Que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais.

A saudade é como um barco: ela nunca é saciada, nunca chega ao seu porto. É separação, distanciamento, vagando num mar infinito, carregando aquilo que mais prezamos pra longe da gente. Mas, talvez, as melhores imagens sejam estas:

Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu

O parto pressupõe um movimento de dentro para fora, certo? A saudade é justamente o inverso disso: um movimento de fora pra dentro. Aquilo que desejamos já não tem mais existência no mundo físico. Existe - e vive! - dentro de nós.
Agora, vejamos os versos seguintes: "Saudade é arrumar o quarto / do filho que já morreu". Esses versos são os mais pungentes e dolorosos de toda a canção e resgatam a idéia dos versos anteriores. Saudade é a perda de algo que amamos e desejamos reaver, por mais impossível que isso seja, como um filho morto que ainda vive na lembrança dos pais por meio de seus pequenos objetos deixados no quarto vazio. Ele está lá e, ao mesmo tempo, não está. É... a saudade pode ser isso: um quarto vazio, repleto de lembranças. Um quarto que dói.
Além disso, o título, bem como os segundos versos de cada estrofe, lembram-me bastante do filósofo grego Platão:

"Oh, metade afastada de mim..."
"Oh, metade exilada de mim..."
"Oh, metade arrancada de mim..."
"Oh, metade amputada de mim..."

Ele tem um livro chamado O banquete, que é uma grande dissertação sobre o amor. Em uma espécie de piquenique, vários filósofos expõem sua opinião sobre o tema. Um deles, Aristófanes, lança sua teoria sobre as almas gêmeas. Diz ele que, no início dos tempos, o mundo era habitado por seres fabulosos e andróginos, ou seja, não havia gênero masculino ou feminino. Ambos eram um só. E como eram belos e poderosos!
Naturalmente, Zeus, o poderoso chefão dos deuses, não gostou muito disso. Afinal, eles representavam uma ameaça. E se essas criaturas - semelhantes aos deuses do Olimpo - decidissem destituí-lo do trono e tomassem o poder? Astuto, decide enfraquecê-los portanto. Como fez isso? Dividindo-os ao meio.
Dessa forma, nasce o homem e a mulher. O que era um, agora são dois. E Zeus os condena a vagar pela Terra em busca da sua outra metade, na tentativa, inútil, de voltar àquela unidade perdida.
Esses somos nós. Seres mutilados, partidos, condenados a errar pelo mundo em busca daquela parte que nos completa. Daquela parte que, no fundo, somos nós mesmos. Quem já não disse a respeito de uma namorada: "Ah, ela me completa!"?
Conclusão: nossa busca pela "cara metade", pela "alma gêmea", pelo "pedaço de mim", é uma busca pelo autoconhecimento, é uma jornada para encontrarmos a nós mesmos. Só assim - amando - poderemos ser deuses novamente.



Deus