domingo, 10 de fevereiro de 2008

sábado, 9 de fevereiro de 2008

A vida não é uma comédia romântica

Homem e mulher se conhecem numa sala de espera de médico. Ela grávida, ele esperando a mulher, que consulta com o médico. Ele oferece a "Caras" que estava folhando:
— Quer dar uma olhada?
Ela:
— Acho que essa eu já vi. É nova?
Ele, depois de consultar a data da revista:
— Bom, é deste século...
Os dois riem. E se apaixonam. Dessas coisas. Destino, química... Quem explica essas coisas? Se apaixonam, pronto. Mas não caem nos braços um do outro.
Mesmo porque a barriga dela, de sete meses, não permitiria. Ficam apenas se olhando, atônitos com o que aconteceu. Pois junto com o amor súbito vem a certeza da sua impossibilidade. Como uma ferida fazendo casca em segundos. E como nenhum dos dois é um monstro de frivolidade, e como a vida não é uma comédia romântica, é uma coisa muito séria, e como eles não podem largar tudo e fugir, trocam informações rápidas, para pelo menos ter mais o que lembrar quando lembrarem aquele momento sem nenhum futuro, aquela quase loucura. Sim, é o primeiro filho dela. Menino. E a mulher dele? Está consultando o médico porque a gestação complicou, o parto talvez precise ser prematuro.
Também é o primeiro filho deles. Filha. Menina. Que mais? Que mais? Não há tempo para biografias completas. Gostos, endereços, telefones, nada. A mulher dele sai do consultório. Ele tem que ir embora. Dá um jeito de voltar sozinho e perguntar o nome dela. Maria Alice. E o dele? Rogério! Rogério! E sai correndo, para nunca mais se encontrarem. Mas se encontram. Três anos depois, na sala de espera de um pediatra.
Ela chega com uma criança no colo. Ele está lendo uma revista. Talvez a mesma "Caras". Os dois se reconhecem instantaneamente. Ele pega a mãozinha da criança. Pergunta o nome. É João Carlos. Caquinho.
— Ele está com algum...
— Não, não. Consulta normal. Ele é saudável até demais. Hiperativo. E a de vocês? O parto, afinal...
— Foi bem, foi bem. Ela está ótima. Se chama Gabriela. Só veio fazer um checape. Eu não posso ficar lá dentro porque fico nervoso.
E declara que não houve dia em que não pensasse nela, e no que poderia ter sido se tivessem saído juntos daquele consultório, anos atrás, e seguido seus instintos, e feito aquela loucura. E ela confessa que também pensou muito nele e no que poderia ter sido. E ele está prestes a pedir um telefone, um endereço, um sobrenome para procurar no guia, quando a mulher sai do consultório com a filha deles no colo e ele precisa ir atrás, e só o que consegue é um olhar de despedida, um triste olhar de nunca mais.
Mas se encontram outra vez. Dois anos depois, na sala de espera de um pronto-socorro. Ele com a mulher, ela com o marido. Ele leva um susto ao vê-la. O que houve? É o Caquinho. O cretino conseguiu prender a língua numa lata de Coca. Ele se emociona. A mulher dele não entende.
De onde o marido conhece aquele Caquinho? E aquela mulher, que está perguntando se aconteceu alguma coisa com a Gabriela? Não foi nada, Gabriela só bateu com a cabeça na borda da piscina e está levando alguns pontos. E nem a mulher dele nem o marido dela entendem por que, ao chegar a notícia de que o Caquinho só ficará com a língua um pouco inchada, os dois se abraçam daquela maneira, tão comovidos. Depois, em casa, ele se explica:
— Solidariedade humana, pô.
A história não precisa terminar aí. Rogério e Maria Alice podem continuar se encontrando, de tempos em tempos, em salas de espera (dentistas, traumatologistas, psicólogos especializados em problemas de adolescentes etc.) até um dia ela sair do quarto de hospital onde está o Caquinho, que teve um acidente de ultraleve, e avistá-lo na sala de espera da maternidade, e perguntar:
— A Gabriela está tendo bebê?
E ele fazer que sim com a cabeça, com cara de "para onde foram as nossas vidas"?



Luiz Fernando Veríssimo

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Bem-aventurados os "vieiras" da vida, pois deles será o reino dos céus!



Esquerda e direita

"O capitalismo é a exploração do homem pelo homem. O comunismo é exatamente o contrário."
Stanislaw Ponte Preta



Camões por Rubem Braga

Rubem Braga tinha um enorme carinho por Camões que, em seu tempo, era usado para os estudantes aprenderem análise sintática. Trata-se de um poeta macho, forte, e faz com que saiamos mais fortes do seu convívio, segundo o escritor.
Sobre isso, disse certa vez:

"Velho Ludovicus, só agora aprendi que tens o direito de chatear e mortificar a juventude através das gerações - porque o gênio tem todos os direitos."


É mais ou menos como eu me sinto ao ensinar Camões nas aulas de Literatura! rs


Resposta ao velho Braga

Muitos anos depois, a Danuza Leão escreveu uma crônica, analisando o relacionamento entre ambos:

"Ele foi apaixonado por ela. Não, apaixonado não é a palavra: era um bem querer que ultrapassava qualquer necessidade de tocar seu corpo e acabar na cama. Não que isso estivesse fora de cogitação, mas não era o objetivo final. Não havia objetivo algum, a não ser olhar e ir gostando, gostando. Gostando para nada, o que se naquele tempo já era difícil de entender, imagine hoje de explicar.
Durante muito tempo ela fingiu que não entendeu; gostava dele mas assim, nada demais, e às vezes até incomodava aquele homem que olhava para ela tão sério, com um olhar tão grave. Com ele por perto era difícil dar risada, fazer graça, sair dançando.
Com ele era diferente; ela não provocava, quando se sentava cobria as pernas e chegava a parecer pudica, quando ajeitava o decote. Ela não provocava porque não era preciso, e com ele não dava para brincar; com ele era diferente.
O tempo passou; ele teve muitos casos, ela se casou algumas vezes, mas sempre que se encontravam guardavam um silêncio respeitoso sobre seus amores passados ou presentes. Esse era um assunto rigorosamente tabu, como se tivessem tido um caso de amor intenso. Até os amigos comuns percebiam a delicadeza do tema e disso não se falava.
Mais tarde, quando algumas vezes se cruzaram - ela com seus filhos -, era como se não fossem dela; ele simplesmente não registrava que eles existiam e nunca fez o mais banal dos comentários, do tipo 'parecem com você'. Não, essas convenções sociais para ele não existiam, e ela entendia.
Muito tempo se passou e um dia, numa tarde de domingo, a troco de nada, começou a pensar nele. Por que, afinal, nunca tiveram nada um com o outro? Por quê?
Ficou pensando: se divertiu muito na vida, deu muita risada, fez muita bobagem; brincou infindáveis vezes de se apaixonar, machucou muito e foi muito machucada, mas sempre levou a sério algumas regras de conduta que nem ela sabia que tinha, mas que sempre respeitou. Uma delas é que não se pode brincar com os sentimentos dos outros, não quando eles são sérios; não com os de uma pessoa como ele.
Agora, na tal tarde de domingo, fica pensando em quanto gostaria que ele soubesse disso, que soubesse porque nunca houve nada, nem um braço encostado por acaso. Não que ele houvesse algum dia tentado, mas por certo gostaria; claro que gostaria.
Mas sente que não foi preciso; ele, que era incapaz de fingir ou mentir, sempre soube que ela, à sua maneira, também não.
No fundo ela sabe, sempre soube, que eles se gostaram e de certa maneira se amaram, no que isso tem de mais sério, de mais direito.
Foi só isso, e isso é muito."

O velho Braga

No amor, os defeitos transformam-se em encantos. E não serão encantos mesmo?

Crônica do velho Braga que, na verdade, era dirigida à Danuza Leão:

"Diziam que Maria do Carmo era muito escura; eu dizia que era bem morena.
Diziam que era muito desleixada; eu dizia que era displicente. Que era sem modos; eu dizia que era muito viva.
Também disseram que ela quando cantava desafinava e eu dizia que ela tinha a voz muito bonita.
Pescoço de girafa! - diziam; e eu murmurava: de cisne. Muito sem educação!; mas eu achava que era espontânea. Desfrutável; e eu dizia que era muito engraçada.
Então as amigas bondosas e os amigos compassivos ficavam irritados, me encaravam e faziam uma pergunta com ar de desafio: será que você tinha coragem... E eu suspirava: quem me dera.
Então o último argumento terrível foi dizer que ela dava confiança a todo mundo. E eu baixei a cabeça e fiquei triste. Fiquei triste porque não era verdade. Ela nunca me deu confiança."